O resultado da missão da OEA ao país joga um balde de água fria na postura dos órgãos sul-americanos, o Mercosul e a Unasul, que suspenderam o Paraguai de seus quadros alegando "ruptura" política no país, sem que um representante de Assunção sequer estivesse presente à reunião onde a medida foi decidida.
Analistas especulam se o isolamento político do Paraguai do Mercosul poderia levar o país a procurar alternativas de integração – inclusive uma maior relação com os Estados Unidos, um dos países por trás da decisão da OEA de não adotar sanções.
Por ora, a avaliação dos analistas é que é difícil ver um futuro para o país longe de esquemas de integração com seus vizinhos. No entanto, em entrevista à BBC Brasil, o embaixador paraguaio disse que a decisão do bloco "feriu" o seu povo e amargou a relação do país com o Brasil.
Durante a sessão da OEA, Hugo Saguier se mostrou particularmente ofendido quando o representante brasileiro no órgão, Breno Dias da Costa, disse que o colega paraguaio estava ali "por generosidade" – indicando que fazia parte de um governo ilegítimo. Quando a OEA não seguiu a decisão do Mercosul, Hugo Saguier sentiu-se vingado.
"Saibam medir as suas consequências, vocês são como um elefante metido dentro de uma loja de cristal: quando se movem, quebram tudo", disse o representante paraguaio à BBC Brasil.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil – O sr. acha que as medidas do Mercosul podem afastar de vez o Paraguai do bloco?
Hugo Saguier
– Nós não nos afastamos, eles é que nos afastaram. Nos afastaram sem
nos dar o direito sequer de estar presente, violando a letra e o
espírito -que é o mais importante- de todos os tratados do bloco.
BBC Brasil – Mas agora o Paraguai tem a opção de tentar se aproximar ou continuar se afastando do Mercosul.
Saguier
– Nesse momento, o Paraguai iniciou uma ação nos Tribunais do Mercosul
questionando as decisões, já que foram feitas sem a nossa presença. Por
outro lado, o presidente Federico Franco manifestou que não iniciará
nenhuma medida em seu governo para se separar do Mercosul, já que ele
considera que em seu período, que é curto, não pode estar hipotecando
uma decisão do futuro presidente. Me parece uma atitude séria e
responsável. No entanto, há muitos setores da opinião pública paraguaia e
setores políticos que se sentem muito incomodados com o Mercosul hoje
em dia.
BBC Brasil – Ou seja, o Mercosul será um grande tema das eleições paraguaias.
Saguier
– Sem dúvida nenhuma. Mercosul e Unasul serão temas centrais dentro dos
programas internos dos partidos políticos e nas eleições nacionais.
Será a primeira vez que temas internacionais serão mais importantes nas
eleições que a agenda doméstica.
BBC Brasil – O sr. crê que o Mercosul chegou a um impasse ao fechar a porta com o Paraguai?
Saguier
– Acho que sim. Acho que cometeram um erro, não mediram as
consequências, e a prova está no profundo debate interno que se produziu
no seu país.
BBC Brasil –O Brasil?
Saguier
– Sim. Nós mesmos já não sabemos quem no Brasil é a favor ou é contra. O
embaixador José Botafogo, que foi ministro da Integração, disse que é
contra o procedimento do Mercosul. Eu tenho muitos colegas embaixadores
brasileiros de quem recebi palavras de alento. Outros bloquearam o nosso
número de telefone.
BBC Brasil – E como o sr. crê que sairemos desse impasse?
Saguier
– Eu estou muito preocupado. A relação entre Brasil e Paraguai é um
casamento forçado. Quando assinamos o Tratado de Itaipú, em 1973, um
chanceler disse que os países haviam finalmente assinado um tratado de
paz – cem anos depois da guerra. E assim fomos funcionando. Mas essa
atitude prepotente, ilegal e irracional do Mercosul afetou e feriu o
povo. O que tem o povo a ver com as decisões dos seus governantes?
Saibam medir as suas consequências, vocês são como um elefante metido
dentro de uma loja de cristal: quando se movem, quebram tudo.
BBC Brasil – Mas o Brasil desde o princípio manifestou que não queria e não quer sanções de ordem econômica contra o Paraguai.
Saguier
– Pergunte às cidades fronteiriças como está o comércio nesse momento.
Não vou dizer, o sr. mesmo pergunte para ver se não houve consequências
econômicas.